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Regulação emocional na infância: o que a escola pode fazer


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Não é incomum os pais receberem uma ligação da escola dos filhos pequenos, dizendo que gostariam de conversar "sobre o comportamento emocional" da criança.


Toda semana, professores e coordenadores pedagógicos descrevem a mesma cena: a criança que chora por uma nota, que não aguenta perder um jogo, que desregula diante de qualquer espera ou frustração.


A interpretação mais comum é comportamental. Falta de limite. Criação permissiva. Mas essa leitura deixa de fora uma dimensão que muda completamente a resposta pedagógica: a regulação emocional é uma competência neurológica, não um traço de personalidade.


E parte do que chega à sala de aula hoje tem raiz em experiências dos primeiros anos de vida, muito antes da criança entrar na escola. Eu vou explicar!


O que é regulação emocional e por que importa para a escola

Regulação emocional é a capacidade de identificar, processar e modular estados emocionais intensos sem perder o funcionamento. Sentir raiva sem agredir. Sentir frustração e continuar tentando. Sentir ansiedade e ainda assim agir.


Essa capacidade depende da maturação de regiões cerebrais que só terminam de se desenvolver na vida adulta. O córtex pré-frontal, responsável pelo controle inibitório e pela regulação das emoções, está em plena construção durante toda a infância e adolescência.


Isso significa que a criança pequena genuinamente não tem as ferramentas neurológicas para atravessar emoções intensas sozinha. E o ambiente em que ela cresce, dentro e fora da escola, determina em grande parte se essas ferramentas estão sendo desenvolvidas ou comprometidas.


O que está chegando na sala de aula

Na atualidade, precisamos olhar par aum elemento essencial que pode causar prejuizos nessa área, o uso excessivo das telas na infância.



Regulação emocional na infância escola

Uma revisão publicada na revista MDPI Children em 2025, analisando dez estudos com mais de 231 mil crianças de nove países, mostrou que a exposição excessiva a tecnologias digitais afeta negativamente as funções executivas, especialmente memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva.


Todas competências diretamente ligadas à regulação emocional.


Uma pesquisa publicada na revista Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry acompanhou 265 famílias durante um ano e mostrou que o uso de telas como regulador emocional nos primeiros anos de vida criou um ciclo: quanto mais a tela acalmava, menos a criança desenvolvia estratégias próprias de autorregulação.


Essa criança chega à escola sem as ferramentas que precisaria ter por falta de oportunidade de treino!


O que a escola pode fazer na prática?

A escola não criou esse problema. Mas tem ferramentas concretas para compensá-lo parcialmente, e essa é uma das suas funções pedagógicas mais importantes.


  • Preservar momentos de baixa estimulação

Recreio sem tela, espera sem preenchimento digital, atividades que exijam tolerância à frustração, como leitura individual, jogos com regras e criação manual, são, neurologicamente, treino de regulação emocional.

Não é arcaísmo pedagógico. É proteção do desenvolvimento.


  • Nomear emoções como prática curricular

Estudos consistentes mostram que a nomeação verbal de emoções ativa o córtex pré-frontal e reduz a ativação da amígdala, o oposto do que acontece quando a emoção é suprimida ou ignorada.



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Programas de educação socioemocional que ensinam vocabulário emocional têm evidência robusta de impacto, especialmente quando iniciados antes dos 8 anos. O vocabulário emocional é uma das ferramentas mais subestimadas da educação. Quando uma criança aprende a identificar e nomear o que está sentindo, raiva, frustração, medo, tristeza, vergonha, ela não está apenas desenvolvendo linguagem. Está ativando regiões cerebrais responsáveis pelo controle emocional.


Pesquisas em neurociência mostram que a simples nomeação de uma emoção reduz a atividade da amígdala, a região do cérebro responsável pelo alarme emocional, e fortalece a conexão com o córtex pré-frontal, que é exatamente a região que precisamos para nos regular. Em linguagem simples: colocar um nome no que se sente já é, por si só, uma forma de se acalmar.


A escola que incorpora o ensino do vocabulário emocional de forma intencional, por meio de rodas de conversa, leitura de histórias, jogos cooperativos e momentos de escuta, está oferecendo às crianças uma ferramenta que elas vão usar pelo resto da vida.


  • Interpretar antes de punir

A criança que desregula em sala de aula pode não estar com déficit de limite. Pode estar com déficit de treino de regulação emocional.


Antes de responder com punição ou encaminhamento, vale perguntar: essa criança tem as ferramentas neurológicas para atravessar essa emoção? Em muitos casos, a intervenção precisa ser de ensino, não de correção.


  • Comunicar com as famílias sem culpabilizar

O educador que consegue explicar para um responsável o mecanismo por trás da dificuldade emocional do filho, com base na ciência e sem julgamento, abre uma conversa muito mais produtiva do que a conversa sobre limite.


Escola e família precisam trabalhar a partir do mesmo entendimento. E cabe à escola, muitas vezes, iniciar essa conversa. A dificuldade de regulação emocional que educadores observam nas crianças de hoje não é um problema de comportamento isolado. É, em parte, uma resposta de um cérebro em desenvolvimento a um ambiente que não ofereceu o treino necessário.


Reconhecer isso é o ponto de partida para uma resposta pedagógica que seja, ao mesmo tempo, eficaz e humana.


Geovanna Tominaga. Sou jornalista, especialista em infância contemporânea e neurodesenvolvimento. Graduanda em Psicopedagogia e pós-graduanda em Neuropsicopedagogia. Autora do livro Terra do Contrário, selecionado para o PNLD 2026-2029.


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