Meu filho faz amizade com uma IA
- Geovanna Tominaga

- 14 de jul.
- 2 min de leitura

Quando li que três em cada quatro adolescentes americanos já interagiram com amigos de inteligência artificial, minha primeira reação não foi de espanto com a tecnologia, foi uma espécie de tristeza.
Porque a reflexão que me veio foi que vazio a IA pode estar estar preenchendo.
Pense bem, uma amiga IA está sempre disponível, de bom humor, disponível, nunca se entedia com a conversa... Não julga e nunca "dá bolo". Uma amiga perfeita, não?
Sabe o que eu fiquei pensando também? Quantas crianças têm um adulto assim na vida?
A gente vive numa época em que nós estão cada vez mais ocupados, as famílias cada vez menores, as cidades cada vez menos seguras para o brincar livre, as agendas cada vez mais cheias de atividades organizadas que deixam pouco espaço para aquela boa conversa jogada fora...
E aí aparece uma IA que só quer saber de você. Que lembra do que você disse semana passada. Que pergunta como foi o dia. Que nunca vai embora! Para uma criança ou adolescente que sente solidão, isso é mais do que tecnologia, é consolo.
O que me preocupa não é a IA
O que me preocupa é o que a existência e o sucesso dessas ferramentas revela sobre o que as nossas crianças estão sentindo. Amizades reais são difíceis. Exigem disponibilidade, vulnerabilidade, tolerância ao outro, capacidade de reparar o que quebrou.
E essas habilidades se desenvolvem exatamente no exercício das relações imperfeitas, nas brigas que precisam ser resolvidas, nos amigos que somem por uns dias e reapararecem...Nos adultos que às vezes não têm tempo mas fazem questão de aparecer.
Quando uma IA preenche esse espaço, a criança fica confortável. Mas não cresce emocionalmente.
É como musculação com peso zero. O movimento existe, mas o músculo não se desenvolve. Agora deu deixo uma questão para todos nós refletirmos:
Será que tem algo errado quando a criança prefere conversar com uma IA?
Uma pergunta que precisa ser feita antes de qualquer conversa sobre limite de uso, sobre regulação, sobre tecnologia. Antes de falar sobre o que a IA está fazendo com nossas crianças, talvez precisemos olhar para qual vazio que ela está preenchendo.
Precisamos estar vigilantes e dispostos antes que a IA se torne a resposta rápida para a solidão das infâncias contemporâneas.
Geovanna Tominaga. Jornalista, escritora, especialista em Neurociência, Educação e Desenvolvimento Infantil. Graduanda em Psicopedagogia, pós-graduanda em Neuropsicopedagogia.
Para palestras e projetos: geovanna.tominaga@gmail.com















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