Como seria a sua Tv Globinho hoje?

Quando recebi o convite para anunciar a volta da Tv Globinho numa edição especial, eu fiquei muito emocionada. Por sete anos, eu estava lá de segunda a sábado, apresentando desenhos para uma geração de Globinhos que cresceu comigo.
Ensinei origami, aprendi o nome de personagens, recebi cartinhas escritas à mão por crianças que hoje são pais e mães. Era um trabalho que eu amava realizar.
No dia da gravação da chamada, eu fui transportada de volta para aquele universo lúdico, para aquela sensação de que o que a gente fazia importava de verdade para alguém que estava do outro lado da tela.
Desde o início, apesar do pouco espaço que eu tinha, sempre tentei incluir informacão, cultura e educação nos poucos minutos entre um desenho e outro.
No estudio, eu senti saudades... Todos da equipe sentiram a nostalgia... Eu chorei. Todos choraram relembrando como aquela fase. A infância, como era boa.
E claro, logo veio a pergunta: Mas por que a Tv Globinho saiu do ar???
Por que a TV Globinho acabou?
Bom, em 2014, O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) publicou a Resolução 163, declarando abusiva qualquer publicidade dirigida a crianças com intenção de persuadi-las ao consumo. Foi essa resolução que provocou indiretamente o fim da programação infantil na TV aberta, porque retirou a receita publicitária que sustentava os programas.
Foi uma conquista na questão da proteção das infâncias. Quem viveu os anos 1980 e 1990 sabe do que estou falando. As propagandas daquela época eram intensas. Jingles que grudavam nas nossas cabeças. Os apresentadores anunciavam produtos no meio do programa. As brincadeiras eram premiadas com bens de consumo. A linha entre conteúdo e publicidade era quase invisível.

Eu vivia isso do lado de dentro, desde os tempos de Clube da Criança, Casa da Angélica, e Angel Mix, ao lado da Angélica. Hoje, como mãe e especialista entendo por que essa norma foi necessária. Só que ela incidiu sobre o único lugar onde era possível fiscalizá-la: a televisão aberta.
Sem receita publicitária, o modelo financeiro dos programas infantis entrou em colapso. Eu deixei o comando da TV Globinho em 20o9 para assumir a bancada do Video Show.
A TV Globinho saiu do ar em 2015. Outros canais mantiveram a programacao infanitl por mais tempo.
Mas a grande questão é que as crianças não pararam de consumir conteúdos. Elas migraram de plataforma e foram parar onde não havia nenhuma regra. A primeira alternativa foram os canais infantis pagos. Mas as TVs por assintura chegava a poucos. Esses canais tinham curadoria, grade definida e conteúdo de qualidade, mas mantinham a publicidade nos intervalos. E muita!
Se não me engano, a TVE ( hoje EBC), no Rio de Janeiro, e a Tv Cultura, em São Paulo, eram as únicas opções na Tv aberta onde as crianças estavam livres da publicidade e com acesso a conteúdos educativos. Como esquecer de "Bambalalão" ou "Castelo Rá-Tim-Bum"?

Mas a família que não podia pagar pela assinatura, perdeu a TV Globinho e não encontrou outro lugar seguro.
Chegaram primeiro ao YouTube e depois às outras plataformas e redes sociais.
As crianças de classe média migraram para canais pagos e depois para o streaming.
Mais tarde, todas as classes chegaram ao feed na internet. A chamada "terra da ninguém". Esse foi o resultado de uma decisão que nasceu com a melhor das intenções.
Para aonde foram os conteúdos infantis?
Hoje, muitas crianças e adolescentes estão consumindo conteúdos em plataformas que não foram criadas para elas, com algoritmos desenhados para manter qualquer usuário assistindo o máximo de tempo possível.
Na televisão, havia horário de encerramento, responsável identificável e a tela na salada casa, onde os pais conseguiam acompanhar o que os filhos estavam assistindo.
No feed, a tela está no quarto, embaixo do travesseiro, no bolso da criança, disponível em qualquer lugar, à qualquer hora do dia e da noite.
A intenção era proteger as crianças da publicidade abusiva, mas o resultado foi desastroso. Porque ninguém planejou o buraco que ficou. A publicidade infantil abusiva saiu da televisão e foi encontrar as crianças exatamente onde elas estavam, e sem controle nenhum.
A nossa amada Tv Globinho
Quando eu trabalhava em programas infantis, existia três coisas muito importantes para o desenvolvimento infantil:
O programa tinha hora para acabar. Não tinha próximo episódio começando sozinho, não tinha scroll infinito. O fim era o fim. E esse limite não dependia de nenhuma decisão da família. Era estrutural.
Tinha um responsável identificável. O que ia ao ar podia ser questionado e regulado.
A tela ficava na sala. O que a criança assistia era, em alguma medida, visível para o adulto. A supervisão parental era quase automática.
Nenhuma dessas três coisas era resultado de uma política. Era limitação técnica da época. E quando a tecnologia removeu essa limitação, a proteção das nossas crianças foi junto.
Eu acredito que a emoção de ver nossa querida Tv Globinho voltando para as telinhas, em edição especial, não seja apenas uma questão de nostalgia. As infâncias de hoje, precisam de propostas que vá além do modelo da atenção: qualidade, curadoria, entretenimento e segurança. Acima de tudo, precisamos trazer de volta um espaço com responsabilidade editorial.
Toda a conversa sobre infância e tecnologia no Brasil está concentrada em restringir o que é nocivo. E quase nada em produzir o que é bom.
O Brasil deu um passo importante com o ECA Digital, Lei 15.211/2025, que estabelece regras de proteção para crianças e adolescentes no ambiente digital:
proíbe publicidade comportamental direcionada a menores,
veda mecanismos de design manipulativo como scroll infinito e autoplay,
e garante privacidade por padrão nas plataformas.
É um avanço real. Mas, por mais importante que seja, regula o que existe. Não cria o que falta. O Brasil ainda não tem uma política nacional de produção de conteúdo infantil digital de qualidade.
Como você acha que deveria ser a grade infantil ideal de hoje?
Eu acredito que não dá pra simplesmente voltar ao que era antes. Mas, sem dúvida, a Educação midiática é essencial. Precisamos ensinar para nossas crianças como os meios funcionam. Falar sobre interação responsável com o digital e mostrar onde estão os espaços com curadoria séria e sem a ditadura dos algoritmos.
O que eu levo de sete anos na TV Globinho
Às vezes eu penso nas crianças que me assistiam de pijama, com o café da manhã na mão, esperando pelos desenhos. Essas crianças cresceram. Algumas delas têm filhos agora e os filhos delas crescem num mundo completamente diferente. Não é melhor nem pior. É diferente. E por isso, exige respostas diferentes.
Nós teremos a nossa TV Globinho de volta em uma edição especial como parte da programação da "Maratona da Esperança", do CRIESP. Mas o que eu espero mesmo é que essa volta abra uma conversa maior.
Um debate sobre o que o audiovisual brasileiro pode fazer pela infância de hoje; quem tem responsabilidade de produzir conteúdo de qualidade para crianças; o que acontece quando esse conteúdo não existe e as crianças vão buscar sozinhas em qualquer lugar.
Geovanna Tominaga — Jornalista, escritora, especialista em Neurociência, Educação e Desenvolvimento Infantil. Graduanda em Psicopedagogia, pós-graduanda em Neuropsicopedagogia. Embaixadora da Parceiros da Educação Rio. Para palestras e projetos: digital.tominaga@gmail.com
















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