O dilema da mulher superdotada
- Geovanna Tominaga

- há 3 dias
- 6 min de leitura

Quero começar dizendo que superdotação não é troféu, muito menos medalha. Não tem a ver com talento ou habilidade isolados. Está mais ligada às capacidades do indivíduo.
Quando dizemos que é uma condição do neurodesenvolvimento, queremos dizer que o cérebro, em sua formação, se desenvolveu de uma maneira diferente e que funciona de uma forma diferente.
A mente de uma pessoa com altas habilidades pode ser mais rápida, aprende com facilidade e rapidez, faz mais conexões entre assuntos, percebe melhor o ambiente ao redor, e também pode ser mais sensível, entre muitas outras características que somente uma avaliação adequada pode apontar.
Nenhuma pessoa com altas habilidades/superdotação é igual.
Saiba mais sobre minha trajetória na superdotação aqui.
Superdotação também não é doença, por isso não usamos o termo "processo de identificação" em lugar de diagnóstico. Mas é uma condição que diferencia a pessoa superdotada de uma pessoa típica na forma como ela se expressa no mundo. O desenvolvimento dessa alta capacidade, que pode ser elevada em uma ou mais áreas, vai depender muito do ambiente e das oportunidades que a pessoa encontrar durante o seu desenvolvimento.
É exatamente aqui que vejo a problemática. Se não identificamos, perdemos a oportunidade de chegar ao máximo do nosso potencial. Uma criança superdotada não identificada pode sofrer muito com questões sociais e de baixa autoestima. Mas quando bem encaminhada, encontra o seu lugar no mundo e tem a oportunidade de se desenvolver de maneira mais saudável.
Não é raro os problemas começarem a aparecer na escola, que é o primeiro meio social fora do ambiente familiar. É muito comum ouvir relatos de bullying, baixa autoestima, depressão e até questões graves de saúde mental por falta de identificação. Falta de entendimento de quem se é.
A mulher superdotada sofre mais com essa invisibilidade
Durante muito tempo, os estudos sobre superdotação foram construídos quase exclusivamente a partir do perfil masculino. Mas isso tem uma explicação: diferente dos meninos, que expressam suas frustrações de forma mais ativa, as meninas são mais observadoras e se adaptam melhor ao ambiente para se encaixar, para ser aceitas. E quando identificadas com altas habilidades/superdotacao, desconfiamos, nao acreditamos.
Aprendemos a não fazer perguntas muito complexas, a concordar quando não concordamos e a ter paciência com quem não tem uma mente tão veloz quanto a nossa. Essa capacidade de adaptação é uma das características mais marcantes da superdotação feminina e, arrisco dizer, uma das mais prejudiciais.
Esse comportamento é também o que torna as mulheres tão difíceis de identificar. Elas se encaixam bem demais para que alguém perceba o que está acontecendo por baixo daquela autonomia, dedicação e esforço. O resultado é previsível: gerações inteiras de mulheres superdotadas que cresceram sendo chamadas de outras coisas, e aprenderam a acreditar nessas outras coisas.
Eu sentia toda essa intensidade, que de certa forma era até valorizada: aplicada, dedicada, perfeccionista, esforçada. Todas essas qualidades tinham alguma verdade. Eu ainda carrego os traços da cultura oriental, que intensifica ainda mais o estereótipo de mulher quieta, inteligente e perfeccionista. Até que um dia descobri que essas explicações eram rasas demais para mim.
Foi após um burnout que decidi investigar e recebi o apontamento das altas habilidades/superdotação. Naquele momento, tudo fez sentido.
Lista de mulheres superdotadas
Para você ter uma ideia do tamanho dessa invisibilidade: pesquisando mulheres brasileiras famosas que se declararam publicamente com altas habilidades/superdotação, encontrei apenas dois nomes de atrizes:
Fabiana Karla — atriz e comediante. Declarou publicamente no programa Sem Censura (TV Brasil)
Thainá Muller — atriz. Identificada aos cinco anos, adiantada na escola. Revelou publicamente em abril de 2026.
Num país com entre 4 e 10 milhões de pessoas com essa condição, em que mulheres e homens nascem superdotados na mesma proporção, onde estão as outras?
Mulheres superdotadas em outros países:
Shakira — cantora colombiana. Fluente em seis idiomas, escrevia poesia desde os quatro anos.
Natalie Portman — atriz israelense-americana. Graduada em psicologia em Harvard. Vencedora do Oscar.
Lady Gaga — cantora e atriz americana. classificado como "excepcionalmente superdotada." Ingressou em programa para jovens talentosos no topo 1% acadêmico ainda na escola.
Geena Davis — atriz americana. Membra verificada da Mensa desde os anos 1990, listada como Prominent Mensan no site oficial da organização.
Lisa Kudrow — atriz americana. . Graduada em psicobiologia no Vassar College.
Goldie Hawn — atriz americana. Reconhecida pela frustração de ser subestimada por décadas por causa da imagem de "loira ingênua."
Marilyn vos Savant — escritora e colunista americana. QI listado no Guinness World Records. Reconhecida globalmente por sua coluna sobre pensamento crítico e resolução de problemas.
Kara Hayward — atriz americana. Membra da Mensa desde os nove anos.
A lista internacional tem muito mais nomes do que a brasileira. Não porque existam menos mulheres superdotadas no Brasil, mas porque falar abertamente sobre a condição ainda é muito mais difícil por aqui.
O estigma social, a confusão com arrogância e a invisibilidade histórica do perfil feminino na superdotação criam uma barreira que pouquíssimas mulheres brasileiras ainda conseguem atravessar publicamente.
O dilema do "ser inteligente"

Demorei para falar abertamente sobre isso. Precisei de um tempo para fazer essa viagem ao passado e entender diversos comportamentos e situações que vivi.
Esse ajuste é tão naturalizado, tão precoce e tão bem-sucedido que a maioria das mulheres não percebe que está fazendo. Só percebe quando vem o cansaço. Aquele cansaço específico de ser, o tempo todo, uma versão incompleta de si mesma.
Quando decidi falar abertamente sobre o assunto, percebi que muitas outras meninas passaram pela mesma situação que eu e tinham vergonha de dizer que eram mulheres superdotadas.
Há uma vergonha de dizer que somos inteligentes, capazes, porque o outro ainda olha isso como prepotência ou superioridade. Isso está entranhado de forma geral na sociedade para todas as mulheres, típicas e atípicas.
Mas acredito que tenho o direito de dizer quem eu sou. E se essa característica faz parte do meu ser, então serei. Muitas pessoas ainda não entendem, não por nada negativo, mas por falta de informação sobre a condição. Meu objetivo aqui é esse: ajudar a mostrar que mulheres superdotadas existem na mesma proporção que os homens, temos as mesmas capacidades e merecemos ter condições de desenvolvê-las.
Espero que, a essa altura, você já saiba que superdotação não tem a ver com notas boas, nem com genialidade. Esse tipo de coisa existe sim, mas não somente.
Maternidade amplifica na superdotação

Quando me tornei mãe, a intensidade da exigência aumentou. A autocrítica, que já era alta, passou a incluir cada decisão sobre uma outra pessoa. O perfeccionismo encontrou um objeto impossível de controlar, um bebezinho.
Uma mente que continua funcionando na mesma velocidade, com a mesma necessidade de estímulo e profundidade, enquanto o cotidiano pede presença em tarefas repetitivas e um ritmo completamente diferente.
É a assincronia do neurodesenvolvimento encontrando a assincronia da maternidade. Eu não entendia na época. Passei pelo lockdown estudando, fazendo cursos e pós-graduações para entender mais sobre desenvolvimento infantil, para poder criar um ambiente mais rico para o meu bebê. Sentia que tinha que "entregar tudo" — esse termo hoje me incomoda — ser a mãe perfeita, não podia errar na nova função.
Mas que mãe dá conta de tudo, o tempo todo? Hoje entendo o que passei. As noites sem dormir, a tensão, o medo, a ansiedade. O burnout veio para me mostrar que ninguém consegue ser perfeito em tudo o tempo todo.
Recebi o apontamento da superdotação, estudei sobre o tema, iniciei mais uma etapa do meu processo de autoconhecimento e hoje consigo ver quando os comportamentos mais desafiadores da condição estão batendo à porta. Consigo parar e respirar, me organizar, deixar para depois, falar não. Hoje entendo que nada é urgente o tempo todo. E que tudo bem você ter ao seu redor pessoas que funcionam em velocidade diferente da sua.
O que muda quando você sabe
Saber não resolve tudo. Mas muda a forma como nos vemos.
A intensidade emocional deixa de ser um defeito e passa a ser uma característica. O perfeccionismo ganha contexto. A dificuldade de se encaixar recebe uma explicação que não passa por inadequação pessoal.
A mulher superdotada para de tentar se consertar para caber nos pequenos espaços que encontra e começa a procurar, ou criar, os espaços que a cabem.
Essa é a mudança mais importante: ser aceita pelo que sempre foi, não pelo que aprendeu a parecer.
No Dia Mundial da Superdotação, peço que você, que é mãe, olhe para sua filha com mais cuidado. E se você se reconheceu aqui, se alguma coisa nesse texto soou familiar, vale procurar uma avaliação psicológica com profissional especializado em Altas Habilidades e Superdotação.
Identificar a condição na infância ou na vida adulta é mais comum do que parece. E nunca é tarde demais para entender quem você é.
Geovanna Tominaga — Jornalista, escritora, especialista em Neurociência, Educação e Desenvolvimento Infantil. Graduanda em Psicopedagogia, pós-graduanda em Neuropsicopedagogia. Mulher superdotada. Para palestras e projetos: contato@geovannatominaga.com.br















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