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O dilema da mulher superdotada


Geovanna Tominaga, mulher superdotada, em terno pink.

Quero começar dizendo que superdotação não é troféu, muito menos medalha. Não tem a ver com talento ou habilidade isolados. Está mais ligada às capacidades do indivíduo.


Quando dizemos que é uma condição do neurodesenvolvimento, queremos dizer que o cérebro, em sua formação, se desenvolveu de uma maneira diferente e que funciona de uma forma diferente.


A mente de uma pessoa com altas habilidades pode ser mais rápida, aprende com facilidade e rapidez, faz mais conexões entre assuntos, percebe melhor o ambiente ao redor, e também pode ser mais sensível, entre muitas outras características que somente uma avaliação adequada pode apontar.


Nenhuma pessoa com altas habilidades/superdotação é igual.




Superdotação também não é doença, por isso não usamos o termo "processo de identificação" em lugar de diagnóstico. Mas é uma condição que diferencia a pessoa superdotada de uma pessoa típica na forma como ela se expressa no mundo. O desenvolvimento dessa alta capacidade, que pode ser elevada em uma ou mais áreas, vai depender muito do ambiente e das oportunidades que a pessoa encontrar durante o seu desenvolvimento.


É exatamente aqui que vejo a problemática. Se não identificamos, perdemos a oportunidade de chegar ao máximo do nosso potencial. Uma criança superdotada não identificada pode sofrer muito com questões sociais e de baixa autoestima. Mas quando bem encaminhada, encontra o seu lugar no mundo e tem a oportunidade de se desenvolver de maneira mais saudável.


Não é raro os problemas começarem a aparecer na escola, que é o primeiro meio social fora do ambiente familiar. É muito comum ouvir relatos de bullying, baixa autoestima, depressão e até questões graves de saúde mental por falta de identificação. Falta de entendimento de quem se é.


A mulher superdotada sofre mais com essa invisibilidade

Durante muito tempo, os estudos sobre superdotação foram construídos quase exclusivamente a partir do perfil masculino. Mas isso tem uma explicação: diferente dos meninos, que expressam suas frustrações de forma mais ativa, as meninas são mais observadoras e se adaptam melhor ao ambiente para se encaixar, para ser aceitas. E quando identificadas com altas habilidades/superdotacao, desconfiamos, nao acreditamos.


Aprendemos a não fazer perguntas muito complexas, a concordar quando não concordamos e a ter paciência com quem não tem uma mente tão veloz quanto a nossa. Essa capacidade de adaptação é uma das características mais marcantes da superdotação feminina e, arrisco dizer, uma das mais prejudiciais.


Esse comportamento é também o que torna as mulheres tão difíceis de identificar. Elas se encaixam bem demais para que alguém perceba o que está acontecendo por baixo daquela autonomia, dedicação e esforço. O resultado é previsível: gerações inteiras de mulheres superdotadas que cresceram sendo chamadas de outras coisas, e aprenderam a acreditar nessas outras coisas.


Eu sentia toda essa intensidade, que de certa forma era até valorizada: aplicada, dedicada, perfeccionista, esforçada. Todas essas qualidades tinham alguma verdade. Eu ainda carrego os traços da cultura oriental, que intensifica ainda mais o estereótipo de mulher quieta, inteligente e perfeccionista. Até que um dia descobri que essas explicações eram rasas demais para mim.


Foi após um burnout que decidi investigar e recebi o apontamento das altas habilidades/superdotação. Naquele momento, tudo fez sentido.


Lista de mulheres superdotadas

Para você ter uma ideia do tamanho dessa invisibilidade: pesquisando mulheres brasileiras famosas que se declararam publicamente com altas habilidades/superdotação, encontrei apenas dois nomes de atrizes:


Fabiana Karla — atriz e comediante. Declarou publicamente no programa Sem Censura (TV Brasil)


Thainá Muller — atriz. Identificada aos cinco anos, adiantada na escola. Revelou publicamente em abril de 2026.


Num país com entre 4 e 10 milhões de pessoas com essa condição, em que mulheres e homens nascem superdotados na mesma proporção, onde estão as outras?


Mulheres superdotadas em outros países:


Shakira — cantora colombiana. Fluente em seis idiomas, escrevia poesia desde os quatro anos.


Natalie Portman — atriz israelense-americana. Graduada em psicologia em Harvard. Vencedora do Oscar.


Lady Gaga — cantora e atriz americana. classificado como "excepcionalmente superdotada." Ingressou em programa para jovens talentosos no topo 1% acadêmico ainda na escola.


Geena Davis — atriz americana. Membra verificada da Mensa desde os anos 1990, listada como Prominent Mensan no site oficial da organização.


Lisa Kudrow — atriz americana. . Graduada em psicobiologia no Vassar College.


Goldie Hawn — atriz americana. Reconhecida pela frustração de ser subestimada por décadas por causa da imagem de "loira ingênua."


Marilyn vos Savant — escritora e colunista americana. QI listado no Guinness World Records. Reconhecida globalmente por sua coluna sobre pensamento crítico e resolução de problemas.


Kara Hayward — atriz americana. Membra da Mensa desde os nove anos.


A lista internacional tem muito mais nomes do que a brasileira. Não porque existam menos mulheres superdotadas no Brasil, mas porque falar abertamente sobre a condição ainda é muito mais difícil por aqui.


O estigma social, a confusão com arrogância e a invisibilidade histórica do perfil feminino na superdotação criam uma barreira que pouquíssimas mulheres brasileiras ainda conseguem atravessar publicamente.


O dilema do "ser inteligente"

Geovanna Tominaga, com irmãos, aos 7 anos.
Geovanna com os irmãos, Jean Carlo e Bruno.

Demorei para falar abertamente sobre isso. Precisei de um tempo para fazer essa viagem ao passado e entender diversos comportamentos e situações que vivi.


Esse ajuste é tão naturalizado, tão precoce e tão bem-sucedido que a maioria das mulheres não percebe que está fazendo. Só percebe quando vem o cansaço. Aquele cansaço específico de ser, o tempo todo, uma versão incompleta de si mesma.


Quando decidi falar abertamente sobre o assunto, percebi que muitas outras meninas passaram pela mesma situação que eu e tinham vergonha de dizer que eram mulheres superdotadas.


Há uma vergonha de dizer que somos inteligentes, capazes, porque o outro ainda olha isso como prepotência ou superioridade. Isso está entranhado de forma geral na sociedade para todas as mulheres, típicas e atípicas.


Mas acredito que tenho o direito de dizer quem eu sou. E se essa característica faz parte do meu ser, então serei. Muitas pessoas ainda não entendem, não por nada negativo, mas por falta de informação sobre a condição. Meu objetivo aqui é esse: ajudar a mostrar que mulheres superdotadas existem na mesma proporção que os homens, temos as mesmas capacidades e merecemos ter condições de desenvolvê-las.


Espero que, a essa altura, você já saiba que superdotação não tem a ver com notas boas, nem com genialidade. Esse tipo de coisa existe sim, mas não somente.


Maternidade amplifica na superdotação



Geovanna Tominaga grávida com marido, Eduardo Duarte

Quando me tornei mãe, a intensidade da exigência aumentou. A autocrítica, que já era alta, passou a incluir cada decisão sobre uma outra pessoa. O perfeccionismo encontrou um objeto impossível de controlar, um bebezinho.


Uma mente que continua funcionando na mesma velocidade, com a mesma necessidade de estímulo e profundidade, enquanto o cotidiano pede presença em tarefas repetitivas e um ritmo completamente diferente.


É a assincronia do neurodesenvolvimento encontrando a assincronia da maternidade. Eu não entendia na época. Passei pelo lockdown estudando, fazendo cursos e pós-graduações para entender mais sobre desenvolvimento infantil, para poder criar um ambiente mais rico para o meu bebê. Sentia que tinha que "entregar tudo" — esse termo hoje me incomoda — ser a mãe perfeita, não podia errar na nova função.


Mas que mãe dá conta de tudo, o tempo todo? Hoje entendo o que passei. As noites sem dormir, a tensão, o medo, a ansiedade. O burnout veio para me mostrar que ninguém consegue ser perfeito em tudo o tempo todo.


Recebi o apontamento da superdotação, estudei sobre o tema, iniciei mais uma etapa do meu processo de autoconhecimento e hoje consigo ver quando os comportamentos mais desafiadores da condição estão batendo à porta. Consigo parar e respirar, me organizar, deixar para depois, falar não. Hoje entendo que nada é urgente o tempo todo. E que tudo bem você ter ao seu redor pessoas que funcionam em velocidade diferente da sua.


O que muda quando você sabe


Saber não resolve tudo. Mas muda a forma como nos vemos.


A intensidade emocional deixa de ser um defeito e passa a ser uma característica. O perfeccionismo ganha contexto. A dificuldade de se encaixar recebe uma explicação que não passa por inadequação pessoal.


A mulher superdotada para de tentar se consertar para caber nos pequenos espaços que encontra e começa a procurar, ou criar, os espaços que a cabem.


Essa é a mudança mais importante: ser aceita pelo que sempre foi, não pelo que aprendeu a parecer.


No Dia Mundial da Superdotação, peço que você, que é mãe, olhe para sua filha com mais cuidado. E se você se reconheceu aqui, se alguma coisa nesse texto soou familiar, vale procurar uma avaliação psicológica com profissional especializado em Altas Habilidades e Superdotação.


Identificar a condição na infância ou na vida adulta é mais comum do que parece. E nunca é tarde demais para entender quem você é.


Geovanna Tominaga — Jornalista, escritora, especialista em Neurociência, Educação e Desenvolvimento Infantil. Graduanda em Psicopedagogia, pós-graduanda em Neuropsicopedagogia. Mulher superdotada. Para palestras e projetos: contato@geovannatominaga.com.br

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