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Superdotada, eu? Como descobri minhas altas habilidades aos 44 anos

Atualizado: 3 de ago.

O autoconhecimento me trouxe uma sensação de paz e clareza.


Geovanna Tominaga, jornalista identificada com altas habilidades/superdotação
Geovanna Tominaga, jornalista e apresentadora, foi identificada com altas habilidades/superdotação após avaliação neuropsicológica em 2024, aos 44 anos. Foto: arquivo pessoal

Sou Geovanna Tominaga, jornalista e apresentadora, e fui identificada com altas habilidades/superdotação em 2024, aos 44 anos, após uma avaliação neuropsicológica. Conto mais sobre meu percurso no tema.


Não fui uma criança encaminhada para avaliação, não tive acompanhamento na escola e não desconfiei de nada por quatro décadas.


Descobri tarde, como a maioria das mulheres descobre. Este texto é sobre o que aconteceu depois.


Superdotada, eu?

Desde pequena, sempre fui muito curiosa, com uma mente inquieta que queria absorver tudo ao meu redor.


Lembro-me de passar horas imersa em livros, experimentando novas ideias e buscando respostas para perguntas que nem sempre eram fáceis. Mas nunca me vi como alguém diferente: sempre achei que essa era a minha maneira de ser.


A avaliação foi o resultado de um processo de autoconhecimento que iniciei há muito tempo. Ainda assim, quando recebi o apontamento para a superdotação, fiquei surpresa. Primeiro neguei. Superdotada, eu?


Depois, muitos aspectos da minha vida começaram a se encaixar de uma forma que eu nunca havia imaginado. As vezes em que me senti fora do lugar. As noites insones, com pensamentos e ideias que não paravam. O desejo incessante de aprender mais e de me aprofundar em tudo o que me interessava. Tudo começou a fazer sentido.


Não sou um "gênio", nem inventei a cura para nenhuma doença rara — e sou péssima com números.

O imaginário de que o superdotado é alguém com superpoderes colabora para a construção desse estereótipo. Mas a verdade é que as altas habilidades/superdotação têm nuances, níveis, tipos, facilidades e dificuldades. Principalmente emocionais.


E é aí que mora o que quase ninguém conta: ser inteligente não significa não precisar de ajuda. Significa precisar de um tipo de ajuda que a maioria das pessoas e instituições ainda não sabe como oferecer.


O diagnóstico da superdotação

Geovanna Tominaga mulher superdotada

Saber que uma criança é superdotada dá aos pais a chance de oferecer apoio e um ambiente rico, para que ela desenvolva o máximo do seu potencial. Mas o diagnóstico na vida adulta também tem um valor imensurável.


Ele trouxe uma nova compreensão de quem eu sou e do porquê das minhas peculiaridades.


Durante muitos anos, carreguei questionamentos sobre minha forma de pensar e agir, sem saber que havia uma explicação. Ter essa clareza agora me permitiu aceitar e abraçar minha identidade.


Isso não apenas validou minha jornada, como me deu as ferramentas necessárias para canalizar minhas habilidades de forma mais consciente e produtiva.


Por que só aos 44?

Essa é a pergunta que mais me fazem, e a resposta é pessoal (foi depois de um burnout que decidi fazer a avaliação!). Mas poderia dizer que o motivo também é comportamental. Eu explico!


Geovanna Tominaga mulher superdotada - Evento Mensa Brasil
Participação no evento da Mensa Brasil 2024

Meninos superdotados subestimulados tendem a externalizar: agitação, indisciplina, confronto. Isso incomoda, e o que incomoda é encaminhado para avaliação.


Meninas superdotadas subestimuladas tendem a internalizar: perfeccionismo, ansiedade, silêncio produtivo. Isso não incomoda ninguém e gera elogio.


Sem falar na camuflagem social: meninas aprendem cedo a modular a própria intensidade, a esconder o vocabulário, a esperar a pergunta chegar para não parecerem arrogantes. E no viés do avaliador, que atribui o desempenho de meninas ao esforço e o de meninos ao talento.


O resultado é uma geração de mulheres que chega aos consultórios na casa dos 40 com queixa de ansiedade ou burnout, e sai com uma explicação que reorganiza a história de vida inteira.


Leia mais: Geovanna Tominaga na Glam Mensa Brasil 2024


Falei sobre isso na live "Além do QI: desafios reais da superdotação", promovida pelo Supera em parceria com a Mensa Brasil no Dia Internacional da Superdotação de 2025, ao lado de Cadu Fonseca, presidente da Mensa Brasil, e da psiquiatra Dra. Fabrícia Signorelli. Minha parte foi justamente sobre os desafios da mulher superdotada.



O que fazer depois do diagnóstico?

Essa descoberta não veio apenas com respostas, mas também com novas perguntas. Como posso usar as minhas habilidades? Posso ajudar outras pessoas a entenderem e aceitarem suas peculiaridades?


Uma coisa é certa: o autoconhecimento me trouxe uma sensação de paz e clareza. Eu me sinto mais conectada comigo mesma e mais determinada a seguir minha missão de vida. Continuo apaixonada pelos meus projetos voltados para o público infantil e para o apoio às famílias, e agora, com essa nova perspectiva, sinto que posso contribuir de maneira ainda mais significativa.


Se você desconfia das próprias altas habilidades, o caminho é uma avaliação neuropsicológica conduzida por um profissional familiarizado com AH/SD. E vale saber: no Brasil, não se exige laudo médico para acesso ao atendimento educacional especializado.


Escrevi um guia completo sobre a nova lei de altas habilidades para quem quiser entender os próprios direitos.


O processo de autodescoberta nunca termina. Sempre há algo novo para aprender sobre nós mesmos, e é isso que torna a vida tão fascinante. Espero poder inspirar outras pessoas a se olharem com mais carinho, a se permitirem ser quem realmente são e a explorarem todo o potencial que têm dentro de si.


A vida é uma jornada contínua de descobertas. Vamos continuar crescendo, aprendendo e nos descobrindo juntos.

 

Deixo aqui pra vocês algumas respostas de perguntas que recebo nas redes sociais:


Perguntas frequentes

Superdotação é um transtorno?

Não. É uma condição do neurodesenvolvimento, uma forma diferente de o cérebro funcionar, não uma disfunção.


Dá para descobrir a superdotação na vida adulta?

Sim, e é comum, sobretudo entre mulheres. A identificação em adultos se dá por avaliação neuropsicológica conduzida por profissional familiarizado com altas habilidades.


Por que menos mulheres são identificadas com superdotação?

Porque os sinais femininos costumam ser internalizantes: perfeccionismo, ansiedade, camuflagem social... e não geram encaminhamento escolar, ao contrário dos sinais externalizantes mais frequentes em meninos.


Superdotação é o mesmo que QI alto?

Não. QI elevado é um dos indicadores possíveis, mas a superdotação envolve também criatividade e envolvimento intenso com a tarefa, além de manifestações em áreas artísticas, criativas, de liderança e psicomotoras.


Escrevo e falo sobre altas habilidades desde 2023. Reuni minha trajetória no tema, os textos e os eventos em uma página só.


Geovanna Tominaga. Jornalista e apresentadora, identificada com altas habilidades/superdotação (AH/SD) após avaliação neuropsicológica em 2024. Especialista em Neurociência, Educação e Desenvolvimento Infantil (PUCRS), é autora de Terra do Contrário (PNLD 2026-2029), idealizadora do Conversas Maternas e Embaixadora da Parceiros da Educação Rio.

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